A PERCEPÇÃO DA QUALIDADE EM SERVIÇOS: UM ESTUDO
DE CASO DO BANCO REAL DE ITABIRA - MG.
AUTORES
Luiz Rodrigo Cunha Moura.
Luiz Eduardo Leite de Moura.
Cristiane Tavares de Oliveira.
Nina Rosa Silveira Cunha
E-Mail: luizrodrigo@coelhao.com.br
e lrmoura@pbh.gov.br
Palavras-Chave: Marketing de Serviços, Qualidade dos Serviços, Pesquisa
de Marketing.
Área Temática: Marketing – MKT – 10
RESUMO
Atualmente, as pesquisas de satisfação dos clientes
constituem-se em instrumento fundamental para a avaliação da percepção de
qualidade do ponto de vista do cliente, do seu grau de satisfação quanto aos
mais diversos aspectos e quais são aqueles fatores mais valorizados pelos
mesmos. O seu principal benefício é proporcionar à empresa uma avaliação realista
da prestação de seus serviços.
Este
trabalho tem por objetivo apresentar os resultados obtidos a partir de uma
pesquisa de satisfação da qualidade em serviços realizada com 80 clientes
do Banco Real de Itabira, utilizando-se a Escala Servqual criada pelos pesquisadores
BERRY, PARASURAMAN e ZEITHALM para a mensuração da qualidade percebida pelos
clientes. Esta é uma pesquisa descritiva, onde utilizou-se de questionários
como instrumento de coleta de dados. Foi realizado o pré-teste e o maior desvio
padrão apresentado pelas perguntas foi de 1,82. Assim, calculou-se o tamanho
da amostra - 80 questionários - representativa com 95% de intervalo de confiança
e 0,4 de nível de precisão. O item considerado mais importante pelos clientes
foi a confiabilidade, e o menos importante foi a empatia, corroborando com
os resultados obtidos por BERRY, PARASURAMAN e ZEITHALM. A nota média (de
1 a 9) obtida em relação à qualidade dos seus serviços foi de 7,71. Com estas
informações, a organização possui condições de melhorar a qualidade dos serviços
prestados e assim ganhar vantagem competitiva frente aos seus concorrentes.
1 - INTRODUÇÃO
Os dias atuais vêm sendo marcados por uma expansão sem precedentes do setor de serviços. Na maior parte do mundo esse já é o setor que mais cresce na economia, tanto no que diz respeito ao faturamento quanto no que se refere ao emprego da mão-de-obra (KOTLER 1994). É simples dizer que as empresas precisam estar orientadas para o cliente, que devem procurar superar as expectativas deste, oferecendo um alto nível de qualidade e ele retribuirá com sua lealdade. Na prática, porém, transformar tais recomendações em métodos concretos de trabalho, fazer com que todos na organização os compreendam e os apliquem, e instituir um controle da qualidade na busca do “defeito zero” é tarefa complexa, e precisa seguir determinadas etapas para que a sua implantação seja eficaz.
As empresas prestadoras de serviços dos mais diversos ramos, contudo, já perceberam que tal paradigma da qualidade voltada para a produção de bens industriais precisa ser rompido e que a entrega de serviços de qualidade é atualmente considerada uma estratégia essencial para a sobrevivência e sucesso no cenário competitivo atual. Resultados de estudos norte-americanos que utilizam dados do PIMS (Profit Impact of Market Strategy), segundo ZEITHAML, BERRY & PARASURAMAN (1996: 31), “mostram que empresas que oferecem serviço superior alcançam um crescimento na participação de mercado maior que o normal, que os mecanismos pelos quais a qualidade de serviços influencia os lucros incluem elevação da participação de mercado e preços premium e que negócios superiores em qualidade de serviços em média cobram um preço 8% mais elevado do que a concorrência”. Somente tais dados já são suficientes para evidenciar o fato de que investindo em qualidade de serviços a empresa está, na verdade, investindo na diferenciação, estratégia competitiva que, se bem administrada, pode levar a empresa ao alcance de uma vantagem competitiva sobre a concorrência.
A primeira etapa da qualidade em serviços, segundo HOROVITZ (1993), consiste na realização de um autodiagnóstico pela organização. É necessário saber como anda a qualidade de serviços, incluindo atendimento, rapidez na prestação, cortesia dos funcionários, grau de confiabilidade e outras dimensões. E a melhor maneira de se conseguir tais informações é consultando o cliente. Somente ele poderá dizer quais são suas expectativas em relação ao serviço e se elas vêm sendo atendidas ou não.
Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo principal a realização de um autodiagnóstico na agência do Banco Real localizada na cidade de Itabira - MG. Nesse caso, foi mensurada não só a qualidade percebida, como também a qualidade desejada e os principais itens mais valorizados pelos clientes desta agência bancária.
Um estudo do Instituto de Planejamento Estratégico
de Cambridge, Massachusetts, em cooperação com a Escola de Administração de
Harvard, o qual analisou três mil unidades empresariais estratégicas de 450
empresas foi resumido por WHITELEY (1992, introdução):
“quando a percepção do cliente
da qualidade de uma empresa se situou entre as 20% melhores daquele ramo,
a companhia obteve um retorno de investimento bruto de, na média, 32% ao ano.
Quando a qualidade percebida se situou entre as 40% piores, o retorno de investimento
foi, em média, 14% menor. Trata-se de uma diferença considerável.”
Atualmente,
muitas organizações estão percebendo que a qualidade do serviço pode se tornar
um meio altamente efetivo de criação e manutenção da vantagem competitiva
destas. Através da oferta de serviços de alta qualidade e conquista de clientes
leais é que as organizações aumentam a sua participação no mercado a longo
prazo diferenciando-se dos seus competidores. Em compensação, outras características
distintas podem ser rapidamente alcançadas pelos concorrentes, deixando de
ser um diferencial para o mercado consumidor, mas a conquista dos seus clientes
é a mais difícil (CANNIE & CAPLIN, 1994).
Assim, para a realização do diagnóstico da qualidade percebida dos serviços será utilizada a escala SERVQUAL desenvolvida por PARASURAMAN, BERRY & ZEITHAML. Além de já ter sido validada pelos autores, a mesma vem sendo intensamente adotada em pesquisas acadêmicas similares e possui ampla aplicabilidade na mensuração da qualidade de serviços percebida pelos clientes.
2 – REFERENCIAL TEÓRICO
Para KOTLER (1994:403), “um serviço é qualquer ato ou desempenho que uma parte pode oferecer a outra e que seja essencialmente intangível e não resulta na propriedade de nada. Sua produção pode ou não estar vinculada a um produto físico.” BERRY & PARASURAMAN (1992:17) definem que “a qualidade do serviço é a base do marketing de serviços, porque o marketing do produto é um desempenho. O desempenho é o produto; é o desempenho que os clientes compram.” Para BERRY & PARASURAMAN (1992 : 22) "se a fonte do benefício essencial de um produto é mais tangível do que intangível, ele é considerado uma mercadoria. Se o benefício essencial é mais intangível do que tangível, é um serviço. Contudo, praticamente todos os produtos têm elementos tangíveis e intangíveis que contribuem para o benefício central.”
Segundo KOTLER (1994), os serviços
são intangíveis, ou seja, não podem ser provados, testados ou carregados antes
de serem comprados. KOTLER (1994),
LAS CASAS (1991), LEVITT (1990), BERRY & PARASURAMAN (1992) e COBRA (1986)
descrevem que normalmente, os serviços são produzidos e consumidos simultaneamente.
KOTLER (1994: 403) conclui que “isto não é verdadeiro para bens físicos que
são fabricados, estocados, distribuídos através de revendedores múltiplos
e, posteriormente, consumidos.” Para COBRA (1986), os serviços são primeiramente vendidos, e posteriormente são produzidos
e consumidos e LAS CASAS (1991) observa que a partir disso, é que quando o
prestador de serviços está frente a frente com o cliente é que ele realmente
pode mostrar o seu valor. Os serviços são muito variáveis e pouco padronizados.
Para KOTLER (1994) e COBRA (1986) isso deve ao fato de que os serviços são
muito dependentes dos funcionários que o realizam, ou seja, são muito dependentes
do fator humano, que muitas vezes funciona como um diferencial na prestação
de serviços.
Percebe-se assim, que os serviços
são de alta perecibilidade, ou seja, não podem ser estocados e são consumidos
ao mesmo tempo em que são produzidos. Assim, quando a demanda pelos serviços é altamente
flutuante, a dificuldade do prestador de serviços é muito maior em função
do fato da impossibilidade de se estocar os serviços.
Os serviços são muito variáveis
e pouco padronizados e uniformes. KOTLER (1994) e COBRA (1986) destacam que
isso deve ao fato de que os serviços são muito dependentes dos funcionários
que o realizam, ou seja, são muito dependentes do fator humano.
Segundo BERRY & PARASURAMAN (1992 : 16) “a essência
do marketing de serviços é o serviço. A qualidade do serviço é a base do marketing
de serviços. O marketing de serviços eficaz é um sólido conceito de serviço
bem-feito, um serviço desejado perfeitamente executado.” Estes autores afirmam
que tanto o marketing de serviços como o de mercadorias se baseiam na identificação
das necessidades dos clientes.
Além disso, quanto mais difícil para
o cliente identificar os aspectos mais tangíveis do produto antes da compra,
mais forte o potencial de influência das comunicações boca-a-boca e mais o
produto precisará receber marketing como um serviço. Outra estratégia importante
é a de se ouvir as opiniões dos clientes após a prestação de serviços ter
sido executada.
Segundo WHITELEY (1992) quando
se conhece as reais necessidades dos clientes e procura resolver os seus problemas,
está-se no caminho para a real vantagem competitiva. Quando suas necessidades
e expectativas se tornam o norte para todas as atividades da organização,
os clientes verão suas expectativas constantemente superadas, resolvendo os
seus problemas e gerando até mesmo a fidelização destes.
Segundo LEVITT (1990) os consumidores
usam aparências para julgar realidades e isso se torna muito importante no
setor de serviços pois os clientes não podem testar, pegar ou
provar o serviço antes de o comprar. Na verdade os clientes compram
as suas promessas de satisfação, e a aparência exerce um grande poder de persuasão
sobre os clientes.
Para LAS CASAS (1991) a importância
da imagem sobre o setor de serviços. A imagem e aparência profissional dos
funcionários em contato direto com os clientes e das instalações físicas são
uma grande preocupação dos profissionais de marketing e por isso devem ser
agradáveis e possuir boa aparência. Esse autor afirma ainda que (1991 : 64)
“os prestadores de serviços devem tangibilizar o máximo possível suas promessas.
A tangibilização do intangível deve fazer parte e acompanhar as apresentações
de venda.”
Outro ponto ao qual se deve
estar atento é em relação ao nível do serviço percebido pelo cliente, pois
segundo LAS CASAS (1991) o consumidor deve perceber que está recebendo bons
serviços. Sempre que possível e necessário ele deve ser comunicado para tomar
ciência deste fato.
De acordo com BERRY & PARASURAMAN
(1992 : 29) a confiabilidade do serviço é o coração da excelência do marketing
de serviços. A organização “quando deixa de cumprir promessas sedutoras feitas
para atrair clientes, ela estremece a confiança do cliente em suas capacidades
e abala suas chances de obter reputação pela excelência do serviço. Do ponto
de vista do cliente, a prova de um serviço é sua realização impecável.”
Assim, é imprescindível que o serviço seja feito corretamente da primeira
vez.
Os recursos humanos pertencentes
às organizações prestadoras de serviços exercem um papel preponderante na
qualidade do serviço prestado. Desse modo, LAS CASAS (1991) lembra que produção
e consumo de serviços ocorrem simultaneamente, tornando o preparo profissional
dos funcionários da organização objeto de comercialização. Assim, quanto mais
preparado for o profissional, melhor será o nível da prestação do serviço.
Desse fato ocorre a grande ênfase no treinamento dos funcionários dessas organizações
prestadoras de serviço. BERRY & PARASURAMAN (1992) destacam ainda que
nos serviços, o relacionamento e o contato entre consumidor e prestador de
serviços é um aspecto fundamental. Assim, muitas organizações se preocupam
e concentram diretamente em desenvolver os seus recursos humanos para as atividades
de venda e atendimento ao cliente. Entretanto, LAS CASAS (1991) lembra que
essa atividade de treinamento como também outras atividades relativas aos
recursos humanos da organização como por exemplo, a seleção de funcionários
adequados, são dificultadas pelo fato
de a demanda por serviços ser muitas vezes variável.
Por último WHITELEY (1992 :
38) discorre sobre a importância da comunicação entre os funcionários e os
clientes da organizações.
“Para inspirar os empregados
a medirem os seus esforços e resultados em relação às necessidades e expectativas
dos clientes, é preciso comunicar tais necessidades e expectativas e mostrar
que se acredita sinceramente em que elas podem e devem ser satisfeitas. A
maioria das companhias não conseguem fazê-lo supondo que seu pessoal já sabe
do que os clientes necessitam. Entretanto, empregados da linha de frente podem
não compreender pontos aparentemente óbvios. E quando as companhias deixam
de discutir as necessidades dos clientes, os empregados costumam pensar que
não cabe a eles perguntar.”
LAS CASAS (1991) acrescenta
que os serviços prestados por uma
organização podem variar muito, pois muitas vezes dependem da figura do atendente.
Portanto, variações no humor desses funcionários, problemas pessoais, nível
de turn-over elevado entre outros
fatores, contribuem para a heterogeneidade da prestação dos serviços. Além
disso, os clientes - mesmo segmentados - possuem níveis de exigência de qualidade
variáveis.
Para solucionar estas dificuldades,
BERRY & PARASURAMAN (1992 : 35) descrevem que “é preciso desenvolver diversas atividades que evitem
falhas nos serviços. Essas atividades dividem-se em três grandes categorias:
(1) propiciar liderança do serviço; (2) testar e retestar inteiramente o serviço;
(3) erigir e alimentar uma infra-estrutura organizacional para o serviço sem
erros.” Além disso, LAS CASAS (1991) inclui ainda o treinamento dos funcionários
com o objetivo de assegurar uma prestação de serviços mais uniforme.
Segundo HOROVITZ (1993), não
adianta para uma organização identificar e medir o nível de erros na prestação
de serviços e o nível de satisfação dos seus clientes, sem considerar essas
mesmas medidas relativas aos seus principais concorrentes.
Outro ponto a ser destacado é que um índice de retenção
alto de clientes cria vantagens competitivas, pois o custo da manutenção dos
clientes atuais é menor do que a conquista de novos clientes. Conforme PEPPERS
& ROGERS (1994), a aquisição de novos clientes custa 5 vezes mais
do que a manutenção de um cliente atual. Infelizmente, as empresas
em geral gastam 6 vezes mais no processo de aquisição de novos clientes, do
que no processo de manutenção dos seus clientes atuais. Além disso, os clientes
leais passam a adquirir produtos e serviços da empresa com mais freqüência
e em maior quantidade, contribuindo para o aumento de receita e participação
no mercado. Por último, clientes fiéis se tornam defensores da empresa e dos
seus produtos e serviços e são grandes canais de propaganda boca-a-boca. De
acordo com esses autores, um cliente satisfeito e leal é aquele que compra
e recompra, repetidas vezes, e recomenda um produto aos amigos também.
Por outro lado, um índice de retenção baixo de clientes significa que o número de ex-clientes da empresa - pessoas convencidas de que a empresa possui e oferece um valor inferior por seus produtos e serviços em relação à concorrência - acabará sendo maior do que os defensores da marca, deteriorando a reputação da empresa perante todo o mercado. De acordo com BERRY (1999) para o cliente, o valor equivale a todos os benefícios que ele recebe em troca do esforço representado pelo ato da compra. Entre esses benefícios estão a qualidade da mercadoria, a atenção dos funcionários o ambiente e a comodidade.
Seguindo esse raciocínio, CANNIE & CAPLIN (1994)
realizaram uma pesquisa nos EUA com 180 gerentes de 86 empresas. Alguns dos resultados são os seguintes:
·
Apenas 57% dos participantes
avaliaram que atender às necessidades
dos clientes é prioridade principal.
·
62% das organizações
não conhecem o que os clientes fazem com os produtos ou serviços da empresa.
·
Em relação ao desenvolvimento
de novos produtos e serviços, menos da metade desses são criados ou aprimorados
com base nas opiniões dos clientes.
·
Apenas 59% dos participantes
contactam os clientes perdidos.
·
33% dos participantes
afirmam que a sua estratégia de marketing é orientada a conquistar novos clientes
em vez de gerar novos negócios com os clientes atuais.
Esses autores explicam que atualmente os consumidores
estão somente interessados em realizar negócios com organizações que realmente
satisfazem às suas necessidades, além de se afastarem daquelas que não o fazem.
Segundo os autores, o ponto fundamental para o processo de orientação do cliente
é colocar as suas necessidades como ponto de partida para todas as atividades
da organização.
Segundo CANNIE & CAPLIN (1994) , a estratégia orientada
para o cliente exige uma alta qualidade dos serviços desempenhados pelas organizações
em todos os níveis. As empresas orientadas aos clientes precisam de funcionários
que sejam os defensores dos clientes.
Esses funcionários se colocam no lugar dos clientes - sejam eles internos
ou externos - elaborando e executando as políticas e processos da organização
de modo que o seu foco seja a satisfação das necessidades dos clientes. Esses
autores entendem que a alta qualidade é resultado do atendimento das exigências
dos clientes, sendo que a organização não pode atender a elas se não souber
quais são. Nesse processo, as opiniões dos clientes são ouvidas e executadas,
resultando, a longo prazo, na fidelização e lealdade destes. Tal processo
deve ser contínuo, pois as opiniões e expectativas dos clientes mudam ao longo
do tempo. Assim, é necessário descobrir o que os clientes desejam e mais valorizam,
criando sistemas de avaliação da qualidade com base nos critérios dos seus
próprios clientes. Para WHITELEY (1992), as empresas devem eliminar as barreiras
de atendimento aos clientes, as quais impedem que seus funcionários os sirvam
de modo eficiente. Essas barreiras, muitas vezes, são representadas por procedimentos
e políticas adotados nas empresas, mas que são convenientes somente para alguns
departamentos internos e não para os clientes. Entretanto esse autor explica
que o problema pode ser solucionado pelas organizações, a partir da identificação
dessas barreiras através das opiniões dos seus clientes - eles sabem o que
não está funcionando bem - , fornecedores, funcionários e distribuidores.
Depois, cabe à empresa se livrar dessas barreiras. Além disso, as organizações
que atendem aos desejos dos clientes se diferenciam das outras fundamentalmente
porque proporcionam uma alta qualidade dos serviços não de acordo com as suas
definições individuais, mas de acordo com as definições dos seus clientes.
Seguindo esse raciocínio, CANNIE & CAPLIN (1994) descrevem que os únicos
que podem realmente saber como prestar um serviço ou produzir um produto que
os satisfaça são os próprios clientes. Além disso, são os únicos que realmente
podem afirmar se o serviço ou produto consumido atendeu ou não
aos seus desejos e necessidades. O engenheiro, vendedor, dirigente
ou qualquer outro profissional da organização não pode realmente ter certeza
se o cliente está satisfeito a não ser ele próprio.
2.1 - O modelo Conceitual de Qualidade de Serviços
O desenvolvimento de um modelo
conceitual de qualidade de serviços por PARASURAMAN, ZEITHAML & BERRY(1985)
foi decorrente da constatação feita
pelos mesmos quanto à pouca atenção
dada ao setor de serviços pelos estudiosos. As dificuldades envolvidas em
mensurar os aspetos relativos à qualidade
de serviços faziam com que poucos estudiosos se interessassem pelo assunto,
destacando-se SASSER, OLSEN & WYCKOFF (1978), GRONROOS (1982)
e LEHTINEN & LEHTINEN (1982) .
Assim, PARASURAMAN, ZEITHAML
& BERRY (1985), baseando-se nas considerações teóricas dos autores mencionados
acima e nos insights obtidos por meio
da pesquisa qualitativa que conduziram (entrevistas com executivos e grupos
de foco com clientes), criaram o modelo de qualidade de serviços ilustrado
abaixo:
Hiato5
Empresa
Hiato4
![]()
![]()
Hiato3
Tradução de Percepções
em Especificações de Qualidade de Serviço
Hiato1
Serviço
Entregue (inclui
pré e pós-contatos) Comunicações
Externas aos
consumidores
![]()
Hiato2
Percepções da Gerência
das Expectativas dos Consumidores
Fig. 1: Modelo de qualidade
de serviços (PARASURAMAN, ZEITHAML & BERRY, 1985, p.44).
Segundo PARASURAMAN, ZEITHAML
& BERRY (1985) a essência deste modelo é o conjunto de hiatos demonstrado
acima. Eles (1985:46) colocam que “a qualidade de serviços como percebida
pelo consumidor depende do tamanho e direção do hiato 5 entre as expectativas
e o serviço percebido que, por sua vez, depende da natureza dos hiatos associados
com o design, marketing e entrega dos serviços”. Assim, a magnitude e direção
de cada hiato irá contribuir para impactar a qualidade.
A qualidade de serviços percebida,
contudo, é dependente diretamente da comparação entre o serviço esperado e
o serviço percebido. A posição da percepção do cliente sobre a qualidade de
serviço da empresa depende da natureza da discrepância entre a expectativa
de serviço e o serviço percebido.
Desta forma, quando a expectativa
é maior do que a percepção de qualidade, a qualidade percebida é menos do
que satisfatória. Quando a expectativa é igual à percepção, a qualidade percebida
é satisfatória, e por fim, quando a percepção é maior do que a expectativa
criada, a qualidade de serviços percebida tende a se aproximar da ideal.
2.2 - SERVQUAL: uma escala multiitens para mensuração da qualidade percebida.
A partir de tal modelo conceitual,
PARASURAMAN, ZEITHAML & BERRY(1988) desenvolveram a escala SERVQUAL para
mensuração das percepções dos clientes sobre a qualidade de serviços. A qualidade
percebida , por sua vez, significa um julgamento global que o cliente faz
da excelência ou superioridade do serviço e, segundo os autores acima mencionados
(1988: 15), “é uma forma de atitude, relacionada mas não equivalente à satisfação
e que resulta de uma comparação das expectativas com as percepções de performance
do serviço”.
E é exatamente em tal comparação que baseia-se
a SERVQUAL, uma escala multidimensional, padronizada, que foi testada quanto
à fidedignidade e validade por PARASURAMAN, ZEITHAML & BERRY (1988) e
que, então, é aplicável a todos os tipos de empresas componentes do setor
de serviços, podendo, segundo os autores
sofrer adaptações conforme a necessidade. A SERVQUAL é composta por 22 itens, que derivam de cinco
dimensões da qualidade de serviços isoladas pelos autores (1988). São elas:
-
confiabilidade :
capacidade de desempenhar o serviço prometido de modo confiável e preciso;
-
presteza : disposição
de ajudar aos clientes e de fornecer o serviço com presteza;
-
empatia : atenção
individualizada e cuidadosa que as empresas proporcionam a seus clientes;
-
segurança: conhecimento,
cortesia, dos funcionários e sua capacidade de transmitir confiança;
-
tangíveis: aparência
física das instalações, equipamentos, pessoal e material de comunicação.
Os referidos autores (1988),
no que diz respeito à relativa importância de cada uma das cinco dimensões
em predizer a qualidade geral da empresa, a confiabilidade é a dimensão mais
crítica. Segurança é a segunda mais importante dimensão para todas as quatro
empresas analisadas. Já a dimensão tangíveis, segundo os autores (1988), é
mais importante no caso do banco do que nas outras firmas, enquanto que o
inverso é verdadeiro para a dimensão presteza. Empatia foi a dimensão menos
importante nos cinco casos.
Por meio da SERVQUAL, então,
as empresas podem não apenas avaliar
como seus clientes percebem a qualidade os serviços prestados como um todo,
mas também verificar que dimensões dessa qualidade requerem maior atenção
por parte dos administradores, no sentido de melhorá-las através de uma questão
contendo escala de soma constante, na qual
o respondente é solicitado a alocar 10 pontos de acordo com as dimensões
da qualidade que ele considerar mais importantes.
Assim, a escala SERQUAL constitui
um “esqueleto”, segundo PARASURAMAN, ZEITHAML & BERRY (1988), que através
de seu formato expectativas/ percepções, engloba afirmações para cada uma
das cinco dimensões detalhadas acima. Ela , nas palavras dos autores (1988:
31), “pode ser usada para avaliar
a qualidade de uma determinada firma ao longo de cada uma das cinco dimensões
do serviço pela mensuração dos diferentes escores nos itens que correspondem
a cada dimensão. Também pode prover uma mensuração geral da qualidade de serviços,
considerando-se todas as cinco dimensões
em conjunto”. Por meio da SERVQUAL, então, as empresas podem não apenas avaliar como seus
clientes percebem a qualidade os serviços prestados como um todo, mas também
verificar que dimensões dessa qualidade requerem maior atenção por parte dos
administradores, no sentido de melhorá-las.
De acordo com BRUYNE (1991),
o estudo de caso é um método de investigação que através da coleta de numerosas
e detalhadas informações, visa a aprender a totalidade de uma situação, utilizando-se
de diferentes técnicas de coletas de informações - entrevistas, observações,
documentos, etc. - para tal. O estudo de caso é freqüentemente de natureza
qualitativa e geralmente descreve situações, apresenta problemas e ilustra
teorias, mas sem gerá-las. Neste trabalho, os resultados obtidos irão descrever
a situação atual da agência do Banco Real de Itabira - MG, em relação aos
serviços prestados, sob a ótica dos seus clientes. Esta é uma pesquisa descritiva,
que é um tipo de pesquisa conclusiva cujo maior objetivo é a descrição de
algo, usualmente características de mercado ou funções (ROESCH, 1995).
O instrumento de coleta de
dados escolhido foi o questionário, constituído por uma série ordenada de
perguntas que devem ser respondidas por escrito (MARCONI & LAKATOS, 1986).
Para a sua elaboração foi escolhida a escala SERVQUAL e depois da sua conclusão
foi realizado um pré-teste – com um total de 30 questionários - do questionário junto a 30 clientes do banco.
Os resultados além de servirem de embasamento para alterações e melhorias
no questionário original, também foram utilizados para o cálculo do tamanho
da amostra. Foram seguidas, no aspecto metodológico da pesquisa, as técnicas
recomendadas por MALHOTRA (1996) em que o propósito do pré-teste é o de melhorar o questionário
pela identificação de problemas em potencial.
“Como regra geral um questionário não deve ser utilizado na pesquisa
de campo sem um pré-teste adequado” (MALHOTRA,
1996 : 341).
Para o cálculo do tamanho da
amostra a ser utilizada, considerar-se-á a fórmula de determinação do tamanho
pela média, extraída de MALHOTRA (1996: 394) :
n = Þ ² . z² Onde n é o tamanho da amostra
____________ D representa o nível de precisão
D²
Z representa o intervalo de confiança
Þ representa o desvio padrão.
No presente estudo, o nível de precisão foi 0,4; sendo que o intervalo
de confiança foi de 95% e o valor
de Z = 1,96. A referida análise considerou
todas as 22 questões da escala SERVQUAL, bem como as 2 colunas correspondentes
às expectativas/percepções dos clientes. A partir deste ponto,
calculou-se o maior desvio padrão referente a essas 44 variáveis que
neste trabalho de pré-teste foi de 1,82 -
percepção dos clientes, quanto ao atendimento das suas necessidades pelos
funcionários -, resultando em uma amostra de 80 questionários.
Os questionários - num total
de 80 - foram distribuídos de 2 formas. A primeira, dentro da agência, onde
após ser atendido, o cliente foi convidado a responder ao questionário. Também
foram entregues questionários para clientes do Banco Real na FUNCESI (Fundação
Comunitária de Ensino Superior de Itabira), ou seja, fora da agência bancária.
Além disso, é assegurado aos respondentes a não-identificação dos mesmos,
para que estes se sintam à vontade para responderem livremente às questões.
Por último, mas não menos importante,
cabe ressaltar que a questão que apresentou o maior índice de erros de preenchimento
por parte dos respondentes, foi a relativa à distribuição de 10 pontos entre
as 5 dimensões da qualidade de serviços para se identificar não só a ordem,
mas também o peso da importância de cada uma delas - presteza, segurança,
empatia, tangíveis e confiabilidade.
4 – RESULTADOS
Os resultados da pesquisa em
relação à percepção/expectativa da qualidade estão presentes no seguinte quadro:
|
|
|
PONTOS ATRIBUÍDOS |
|
|
Desejados Percebidos
Média |
|
|
Prestar pronto atendimento
aos clientes |
708 100%
582 82,20% 7,21 |
|
|
Os funcionários serem sempre
corteses |
710 100%
616 86,76% 7,62 |
|
|
Os funcionários que lidam
com os clientes possuem boa apresentação |
684 100%
638 93,28% 7,89 |
|
|
Fornecimento dos serviços
dentro do prazo prometido |
718 100%
605 84,26% 7,49 |
|
|
Funcionários que entendam
as necessidades de seus clientes |
707 100%
591 83,59% 7,31 |
|
|
Fornecimento de material
de comunicação é visualmente agradável |
661 100%
626 94,70% 7,75 |
|
|
Manutenção do foco nos interesses
principais dos clientes |
703 100%
589 83,78% 7,29 |
|
|
Boa vontade em atender aos
clientes |
715 100%
625 87,41% 7,73 |
|
|
Manutenção do cadastro de
clientes com informações precisas e atualizadas |
706 100%
617 87,39% 7,64 |
|
|
Informar os clientes sobre
quando os serviços serão realizados |
711 100%
612 86,08% 7,57 |
|
|
Fornecimento dos serviços
como prometido |
709 100%
595 83,92% 7,36 |
|
|
Funcionários que inspirem
confiança aos clientes |
703 100%
613 87,20% 7,59 |
|
|
Funcionários que tenham os
conhecimentos necessários p/ responderem às questões dos clientes |
716 100%
634 88,55% 7,84 |
|
|
Habilidade no tratamento
dos problemas dos clientes |
712 100%
616 86,52% 7,62 |
|
|
Facilidade p/ resolver os
problemas dos clientes |
714 100%
598 83,75% 7,40 |
|
|
Prestação do serviço correto
logo da primeira vez |
713 100%
614 86,12% 7,60 |
|
|
Os funcionários do Banco
Real demonstram real interesse pelos clientes |
696 100%
599 86,06 % 7,41 |
|
|
Fornecimento de atenção individualizada
aos clientes |
695 100%
596 85,76% 7,38 |
|
|
Funcionários que tenham elegância
e aparência profissional |
705 100%
639 90,64% 7,90 |
|
|
Funcionamento em horário
conveniente p/ todos os clientes |
708 100%
641 90,54% 7,93 |
|
|
Equipamentos e instalações
modernas |
710 100%
611 86,06% 7,56 |
|
|
Fazer com que os clientes
se sintam seguros em relação à prestação de serviços |
712 100%
625 87,78% 7,73 |
|
Quadro 1: Resumo das expectativas
e percepções dos clientes. (Fonte: dados da pesquisa).
Houve ainda uma questão em
separado, para os clientes avaliarem, de um modo geral, a qualidade dos serviços
prestados pelo Banco Real. O seu resultado médio foi a nota de 7,71 (variando
de 1 a 9).
Outro ponto a ser ressaltando
é que a média de todas as 22 questões em conjunto apresentou o resultado de
7,58. Isto é muito interessante pois demonstra que os respondentes foram coerentes
em relação às suas respostas, ou seja, ao avaliarem a qualidade dos serviços
do Banco Real através de 22 perguntas, chegou-se ao resultado de 7,58. Ao
avaliarem a qualidade dos serviços, através de uma única questão, obteve-se
a nota de 7,71. Este fato realça ainda mais a credibilidade dos resultados
encontrados.
De acordo com os respondentes,
a imagem (de 1 a 9) do Banco Real apresenta o valor de 7,78 pontos, bem próxima
à qualidade dos serviços prestados, de acordo com a percepção dos seus clientes.
Além disso, os clientes classificaram em 8,03 (também variando de 1 a 9) a
possibilidade de virem a recomendar o Banco Real a outros possíveis clientes.
Este resultado é muito interessante pois
Em relação às dimensões da
qualidade, o resultado foi o seguinte:
|
DIMENSÃO |
PONTOS OBTIDOS |
MÉDIA AVALIADA |
|
Confiabilidade |
325 |
2,24 |
|
Presteza |
163 |
2,02 |
|
Segurança |
160 |
1,98 |
|
Tangibilidade |
153 |
1,89 |
|
Empatia |
143 |
1,77 |
Quadro 2: Avaliação dos clientes relativas às dimensões de qualidade. (Fonte:
dados da pesquisa).
5 – CONCLUSÕES
De um modo geral, pode-se perceber
que os clientes do Banco Real avaliam o serviço que lhes é prestado com sendo
de boa qualidade.
De acordo com os resultados
da pesquisa, verifica-se que o aspecto em que o Banco Real mais satisfaz os
seus clientes é em relação ao horário de funcionamento. Isto provavelmente
se deve ao fato do grande número de ciaxas eletrônicos disponíveis 24 horas
por dia para os clientes, em diferentes locais da cidade. Além disso, a elegância,
boa parência e porte profissional dos seus funcionários também foram percebidos
pelos seus clientes. A explicação para este fato, é a norma de conduta e de
apresentação que o referido banco coloca para os seus funcionários. Aspecto
como cabelos compridos, unhas grandes e afins, não são permitidos, principalmente
para aqueles que estão em constante contato com os clientes.
Por outro lado, a pior característica
dos serviços oferecidos pelo Banco Real de Itabira, de acordo com a pesquisa
- é o pronto atendimento aos seus clientes. Desta forma, percebe-se que apesar
do elevado grau de informatização apresentado pelo banco, as pessoas não têm
as suas necessidades prontamente atendidas pela instituição. Isto significa
que é necessário uma maior disponibilidade
do número de funcionários em contato direto com o cliente, para resolver os
seus problemas., ou então, um melhor planejamento da quantidade de recursos
humanos a serem disponibilizados cotidianamente para o atendimento dos clientes.
.
Neste caso do Banco Real, a
dimensão "confiabilidade" foi considerada a mais importante e a
dimensão "empatia" a menos importante. Esses dados corroboram com
os estudos realizados pelos criadores da
escala Servqual. Além disso houve uma inversão de posições, entre as dimensões
"presteza" e "segurança" comparando-se o caso do Banco
Real com os trabalhos anteriormente divulgados. Outro ponto que merece destaque
é que a diferença entre as dimensões foi muito pequena: 2,24 para a confiabilidade
e 1,77 para a empatia.
Estes resultados com certeza
indicam que o que os seus clientes mais desejam desejam é que os seus serviços
sejam executados realmente como prometidos e combinados. Além disso, os aspectos
de presteza, sendo classificados em segundo lugar, indicam que os clientes
também desejam fortemente que o atendimento seja realizado de forma pessoal
e que os funcionários demonstrem boa vontade em realmente resolver os problemas
dos clientes.
Por
último, mas não menos importante é necessário discorrer sobre o alto índice
apresentado pela taxa de recomendação- 8,03. Isto é um excelente resultado
para o banco pois os consumidores utilizam fortemente a informação obtida
a partir da recomendação de conhecidos, parentes e amigos, durante o seu processo
de escolha de prestação de serviços. Isto ocorre porque como os serviços são
intagíveis, são prestados ao mesmo tempo em que é consumido pelos clientes,
não pode ser estocado e etc... Estas são características dos serviços, as
quais acarretam que para os consumidores, a escolha dos serviços a serem adquiridos
se transforma em um processo de compra complexo, de alto envolvimento, onde
estes consumidores percebem riscos na sua aquisição e precisam de informações
que consideram imparciais para realizar o processo de compra. Desta forma,
para diminuir a sensação de risco, os consumidores recorrem frequentemente
a amigos, familiares e colegas para pedir indicações para os mais diversos
serviços, e o Banco Real de Itabira, possui um alto índice de recomendação
dos seus clientes atuais que - como na maioria dos serviços – desta forma,
se transformam no seu grupo mais importante de “vendedores”.
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